Seja bem vindo

Últimas postagens

  • Índios x pastores

    Os índios Guarani já foram os donos de todas as terras que vão do litoral do Sudeste até a divisa com o Paraguai. Hoje, confinados em pequenas reservas, vivem como indigentes e se sustentam graças à distribuição de cestas básicas.

    O alcoolismo entre eles é endêmico, e o confinamento é o responsável por um dos mais altos índices de suicídios do mundo. Hoje, no Mato Grosso do Sul, a população indígena não passa de 25.000, mas são poucos os que ainda reverenciam o Deus Nhanderu e respeitam os símbolos e ritos regiliosos.

    A FUNAI e os índios acusam as igrejas pentecostais de intolerância religiosa, elas satanizaram os objetos de adoração e os rituais indígenas , por exemplo, a tintura de urucum, que os índios usam para serem vistos por Deus.

    Na aldeia de Jaguapiru, há 7 km do centro de Dourados, vivem 12.000 índios, quase todos em estado de total indigência, a terra que sobrou para eles é tão pequena que mal dá para criar um cachorro, cerca de 1/3 de hectare por cabeça. O único negócio que triunfa ali é o mercado da fé, e começa sempre da mesma forma, primeiro surge uma igreja modesta, e passados alguns meses aparece uma maior . Hoje, há 36 igrejas diferentes dentro dessa reserva, o mercado é tão concorrido que algumas estão em visível decadência.

    De acordo com a diretora local da FUNAI, a mais intolerante é a Deus É Amor, justamente a que mais cresce. Os templos são construídos em terras da União, sem a autorização do governo. Os índios estão sendo chamados de demônios por não participarem da religião evangélica, e os símbolos religiosos deles têm sido motivo de algazarra e chacota .

    Os indígenas denunciam que pelo menos cinco casas de oração foram criminosamente incendiadas a mando dos pastores.

    Postado em por ANA PAULA LOPES VIEIRA PAIVA
  • Brasil e Índia: pela via federativa

    "Onde foi expedido seu visto?" Ao ouvir esta indagação feita num inglês carregado de sotaque de Mr. Udai Parsadmr, veterano funcionário da polícia de fronteira no Aeroporto Indira Ghandi, em Nova Delhi, respondi: São Paulo, Brasil. Não adiantou: tive de soletrar o nome da cidade e explicar que ali existe um consulado indiano. Após alguns eternos segundos, esboçando algo de dúvida, Mr. Udai desfechou sonora carimbada no passaporte, liberando meu ingresso no país.

    Não existe lugar melhor do que a fronteira para iniciar a descoberta de uma cultura, in loco. É ali que se manifestam as suspeitas, os interesses, os vícios e a relação do governo com o mundo externo. É na fronteira onde as pessoas reconhecem o tipo de cidadania internacional que seu país lhes confere, o conhecimento recíproco e o nível das relações diplomáticas com o porto de chegada. Para a Índia, o Brasil é um país distante, que não oferece perigo; desconhecido, mas que provoca crescente interesse por parte de alguns círculos do governo e da academia.

    Brasil e Índia são países federativos. A forma de Estado semelhante torna-se, subitamente, fator de irmandade, de sintonia. Países continentais, populosos, em desenvolvimento, com desafios sócio-econômicos análogos, e desejos de ampliar sua influência no mundo, descobrem-se conectados pela moldura institucional. Isso quer dizer que ambos os países têm que lidar com uma estrutura política descentralizada, em que as competências governamentais estão distribuídas e compartilhadas entre a união, os estados e os entes locais. Neles, a resolução de problemas nacionais demanda, cada vez mais, a negociação pela via federativa.

    Diante do intenso processo de globalização, a Índia continua sendo um país fechado. Sua política contemporânea ata-se a uma herança cultural milenar, formada por centenas de dialetos, tradições, impregnada de práticas e interditos religiosos. A unidade na diversidade, pregada por Mahatma Ghandi e ainda hoje exaltada como a pedra de toque da mística estatal do país, está amparada em uma federação centralizada, cujos estados e poderes locais têm permanecido alijados do mundo externo. Tal realidade começa a mudar, e aí reside o atual dilema vivenciado pela Índia.

    Que tipo de abertura realizar? Como evitar a contaminação? De que maneira entrar no jogo da globalização sem muito perder? Claro está, não existem respostas prontas a essas perguntas. Mas existem experiências vividas por outros países. Nesse campo,o Brasil já pode ser considerado um jogador experimentado da globalização, com todas as mazelas e virtudes, perdas e ganhos que tal condição lhe propiciou.

    É por isso que a Índia quer aprender com o nosso país. Aprender com nossos erros, para tentar evitá-los. Nossa federação é altamente descentralizada, o que possibilita mais espaço para formulação e execução de políticas públicas à margem do governo central.

    O ingresso do Brasil na globalização significou a consolidação de nossa democracia, a abertura de nossa economia, privatizações, ajuste fiscal, reforma do Estado e toda uma nova agenda com múltiplos ingredientes internacionais, os quais foram incorporados com vertiginosa rapidez nos anos 1990, um processo ainda em curso, por meio das reformas previdenciária, tributária, trabalhista e política e que situa o Brasil na opção internacionalista.

    A entrada brasileira na globalização criou também a problemática da dependência dos capitais e do mercado externo, o de sofrer permanente avaliação de agências de classificação que regem a dança do risco-país. A disputa pelo capital estrangeiro infiltrou-se entre estados e municípios gerando a fatídica guerra fiscal, em que alguns ganham um pouco e todos perdem muito. As relações internacionais de estados e municípios brasileiros estão criando uma nova política externa federativa e demandando novas posturas e ações do governo central visando o federalismo cooperativo.

    O emérito professor Amaresh Bagchi, relator do Seminário Internacional sobre Federalismo num Mundo Globalizado, organizado pelo Instituto Nacional de Finanças e Políticas Públicas da India e pela ONG internacional Fórum das Federações, em Nova Delhi, onde apresentei o Caso do Brasil (6/8/2003), destacou o grande interesse que o nosso federalismo suscita para os indianos. A Embaixadora brasileira Vera Machado, única chefe de missão diplomática que se fez presente no encontro, também sublinhou a modernização e transparência do estado brasileiro, exemplificando com o sistema de arrecadação tributária via internet.

    O processo de conhecimento recíproco, pela via federativa, há de revelar-se muito produtivo. Engajados em recente iniciativa de política internacional, Brasil, Índia e África do Sul, criaram o Fórum de Diálogo entre os três países (Declaração de Brasília, 6/6/2003), visando estabelecer um canal diplomático preferencial e coordenar esforços para agir em parceria nos foros internacionais. Seria importante que nesse novo projeto trilateral pudesse ser incorporada a dimensão federativa, que tão bem singulariza e ajuda a entender o Brasil e a Índia.

    Gilberto M. A. Rodrigues, professor de Direito Internacional e responsável pelo Núcleo de Estudos sobre Federalismo e Relações Internacionais (NUFRI) da Universidade Católica de Santos, é autor de O que são relações internacionais (Brasiliense) e co-autor de Globalização a olho nu (Moderna). E-mail: professor@gilberto.adv.br

    Postado em por ANA PAULA LOPES VIEIRA PAIVA
Exibindo postagens 1 - 2 de 2. Exibir mais »