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Jornal
da Ciência
Sábado,
19 de julho de 2003
Daniel Munduruku,
autor indígena, ganha o Prêmio Érico Vannucci
e propõe
a inclusão do Conhecimento Indígena nas Reuniões Anuais
da SBPC
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Ele recebeu a honraria das mãos
do presidente do CNPq, Erney Camargo, e foi homenageado por Marta Vannucci,
que idealizou o prêmio para obras voltadas à preservação
da cultura brasileiraDaniel Munduruku disse ao 'JC e-mail' que o índio
sempre foi objeto da ciência e que agora ele precisa tornar-se sujeito
da ciência.
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Nesta linha, ele propôs a inclusão
do conhecimento indígena na programação das Reuniões
Anuais da SBPC. Consultado pelo 'JC e-mail' sobre esta proposta de Daniel,
o presidente da SBPC, Ennio Candotti, disse que ela certamente será
acolhida com entusiasmo e lembrou que em algumas Reuniões Anuais
da SBPC anteriores já registraram eventos sobre o conhecimento indígena,
como o uso de plantas medicinais, apresentado no encontro de Salvador em
2001.
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Apesar dos obstáculos, Daniel
nos disse que pretende disseminar cada vez mais a cultura indígena:
'Sinto que estou abrindo caminho para que outros indígenas possam
trilhar. E sinto também que estou trilhando o caminho que meus antepassados
abriram', concluiu.
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O Prêmio Érico Vannucci
Mendes foi criado em 1988 pela mãe de Érico, Marta Vannucci,
após o falecimento do filho, em 1986. Seu objetivo é dar
continuidade ao trabalho de Érico em prol da cultura nacional. Destinado
a premiar autores de estudos e pesquisas sobre a cultura brasileira, tendo
em vista preservar a memória cultural das minorias étnicas
e sociais, o Prêmio é promovido pelo CNPq e Ministério
da Cultura, com o apoio da SBPC.
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Presentes na cerimônia de entrega
do Prêmio Érico Vannucci, o presidente do CNPq, Erney Camargo,
o presidente da SBPC, Ennio Candotti, a ex-presidente da SBPC, Glaci Zancan,
além de Marta Vannucci, do vice-reitor da UFPE, Yoni Sampaio, e
de Tarciana Portela, delegada regional do Ministério da Cultura
em Recife.
Leia a seguir o texto lido por Daniel
Munduruku na ocasião e intitulado:
'Os
movimentos do Saber Indígena'
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'Boa tarde senhores e senhoras aqui
presentes. Meu muito especial cumprimento ao CNPq, por ter reconhecido
nosso trabalho de divulgação da cultura nacional à
Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e um especialíssimo
cumprimento à dona Marta Vanucci pela ousadia da iniciativa.
Creio que não será preciso
dizer da minha alegria por estar aqui, recebendo este reconhecimento. Não
apenas por ser um escritor que ama este país e que quer dar sua
contribuição ao seu desenvolvimento cultural, mas e especialmente,
como indígena saído da floresta, e procurando cumprir uma
promessa que um dia fiz sobre o túmulo de meu velho avô.
Dizia, naquela ocasião, que a
sabedoria que dele havia herdado, buscaria lançar sobre o povo brasileiro,
na tentativa inglória de fazer este nosso povo olhar para sua história
e (re)encontrar suas raízes ancestrais, encontrar a si mesmo espelhado
na face dos ancestrais indígenas.
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Daniel Munduruku /
julho 2003
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É com esse espírito
que tenho escrito meus livros, contado minhas histórias, participado
do movimento indígena, desenvolvido meu pensamento.
É com esse mesmo espírito
que me encontro diante deste público para dizer do meu orgulho de
ser indígena, orgulho que me foi forjado pela dúvida, pela
discriminação, pela exclusão que sofrem os mais de
200 povos indígenas que habitam a Terra Brasil.
Lançando um olhar sobre o que
ocorre nos dias atuais, que eu acredito que não haja no Brasil hoje
um movimento indígena organizado, coeso, coerente.
No que se pôde imitar dos pariwat
- como são chamados, na língua Munduruku, os não-indígenas
- houve tentativas, nem sempre bem sucedidas de organizar os nativos em
associações, cooperativas, entidades não-governamentais,
entre outras.
Tais tentativas, bastante válidas
e coerentes em seus objetivos, repetiam, em gênero e grau o pensamento
ocidental, quadrado, excludente e, sobretudo, capitalista. E este pensamento
não é o mesmo das sociedades indígenas que não
costumam separar sagrado e profano.
O pensamento circular não coube,
assim, no pensamento quadrado, mas o pensamento quadrado quis adaptar o
circular para que coubesse em si. Conclusão: o movimento indígena
- também circular por força dos cantos dos pajés ao
som dos maracás - não aconteceu.
E não acontecerá enquanto
for regido pelas leis cartesianas da organização.
Pois foi justamente por ter sido um
pensamento que não se sujeitou às lógicas do poder
ocidental, que sobreviveu teimosamente até nossos dias.
Mas, se não existe um movimento
indígena, o que existe no Brasil? Ouso afirmar que o que existe
é um saber em movimento; um saber que não se dobra à
logicidade rígida e quadrada que tem conduzido nossa sociedade brasileira;
uma lógica cruel que não permite a existência do diferente,
do circular, do não-capitalista.
Há, portanto, um saber que circula
por nosso país e que vem, aos poucos, oferecendo a outra face ao
Brasil. E vem de todas as direções ao mesmo tempo, para criar
impacto e lembrar nossa existência a todas as pessoas.
Engana-se, porém, quem achar
que será de forma maciça ou mágica simplesmente. Ao
contrário: é um saber que vem de mansinho, sutilmente, deixando
marcas, deixando rastros, se fazendo presente... Foram estas marcas, deixadas
pelos primeiros expoentes do pensamento circular indígena, que são
seguidas pelas organizações criadas e dirigidas por profissionais
de diferentes etnias.
Penso em nomes como Ajuricaba, em tempos
antigos e em Mário Juruna, Angelo Kretã, Marçal Tupã
Y, Daniel Cabixi (primeiro autor indígena cujos textos tive contato),
Álvaro Tucano, Marcos e Jorge Terena, Ailton Krenak, Davi Yanomami,
em tempos intermediários e mais recentemente Chiquinha Paresi, Jecinaldo
Saterê, Lúcia Fernanda Kaigang, Vilmar Guarani, Siridiwê
Xavante, Paulo Mericureu Bororo entre tantos e tantos nomes que estão
à frente do novo saber em movimento.
Estes nomes, lembrados juntamente com
tantos outros que não foram mencionados, estão presentes
em todos os setores da sociedade brasileira, buscando dar sua contribuição:
na saúde, na educação, na agricultura, na pecuária,
na administração pública, na propriedade intelectual,
na cultura material, nas Universidades e na literatura.
E é com este último tópico
que gostaria de encerrar minha fala. Os movimentos do saber indígena
se fazem presentes também na literatura. E não começou
comigo. E não irá parar em mim.
Se por muitos anos, o indígena
era apenas personagem dos contos, histórias e ficções
do não-indígena, de um tempo para cá, ele passou a
ser protagonista da história, da sua própria história.
Ele começou a criar e a oferecer para os pariwat seu próprio
ponto de vista sobre a realidade que vive. Ele passou a descrever o Brasil
sob sua ótica.
É claro que para isso teve que
aprender os mecanismos utilizados pela sociedade envolvente, teve que usar
a tecnologia a seu serviço, teve que, em alguns casos, cursar uma
Universidade, participar de cursos, aprender a língua portuguesa
e, sobretudo, aprender a escrever sua tradição oral na forma
escrita, para que pudesse se fazer compreender por todos os cidadãos.
Este processo não foi tranqüilo.
Pelo contrário, em muitas ocasiões
este autor deparou com a dúvida, com o medo, com a indecisão
e com o receio de estar congelando a Tradição, paralisando
a dinâmica da oralidade. E por mais que tentasse justificar, sempre
deparava com a angústia e com a dificuldade de compreender um processo
irreversível. Muitas das dúvidas eram levantadas por pessoas
de grande conhecimento no pensamento quadrado ocidental.
Estamos no bom caminho? Não seria
a literatura um meio de destruir a cultura? Não estaríamos
antecipando a destruição de nossa gente? Com todas estas
questões em mente, voltei ao lugar onde me aceitei índi.
Voltei à fonte. Fui ouvir o rio.
Sentei-me no lugar onde um dia, meu avô colocou-me para aprender
a escutar. Lá, sozinho, fiz as mesmas perguntas ao velho avô
e ouvi a mesma resposta de trinta anos atrás: se o rio parasse diante
dos obstáculos, ele nunca contemplaria a beleza do mar.
Para mim, isso foi o bastante para convencer-me
que a literatura era um caminho novo a ser construído e que por
ela poderia passar o movimento do saber literário, um braço
novo do saber em movimento.
Desse dia em diante, nunca mais duvidei
e descobri que estava abrindo uma picada na floresta da cidade para que
outros parentes passassem, sempre seguindo as palavras da sabedoria da
nossa gente que diz que o caminho mais seguro é aquele que já
foi pisado muitas vezes... Mas é importante que se diga: alguém
tem que começá-lo.
Ao estar aqui, hoje, neste evento de
grande repercussão nacional e internacional, recebendo um prêmio
pelo conjunto de minha pequena produção literária,
sinto que estou criando um caminho para que outros parentes indígenas
possam trilhá-lo também.
Penso, sobretudo, que estou trilhando
um caminho que meus antepassados foram pisando, arando, desbravando, desmatando
para que eu pudesse pisá-lo com segurança.
É a eles que dedico este prêmio...
foram eles que me fizeram... são eles que me direcionam e são
eles, sobretudo, que me inspiram e me dão o tom das palavras.
Meu muito obrigado ao pessoal do CNPq,
à SBPC, em especial à Rita de Cássia que teve uma
paciência tremenda comigo e à D. Marta Vanucci pelo olhar
materno que dispensou a mim.'
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Daniel
Munduruku Projetos Especiais
"O sonho é o instante
em que nós estamos conversando e ouvindo os nossos
motivos, os nossos sábios,
que não transitam aqui nesta realidade"
(Ailton Krenak)
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