XIPAT? (1)
Tawé levantou levemente a cabeça e fixou o olhar para o outro lado do rio Tapajós. Pássaros levantavam vôo no exato momento em que uma canoa passava na praia. Dentro dela ia um casal bem novinho, recém-casado. O rapaz remava o barco com muita destreza e a moça o olhava com um ar de sonho realizado. Tawé acenou sem muita vontade. Estava triste, preocupado. Não queria conversar com ninguém, saber da vida das pessoas ou o que estava acontecendo com elas.
ilustração: Rogério Borges
Tudo tinha perdido o sentido para ele e não conseguia mais entender as mudanças que estava se processando em sua vida
Ele ia sempre  a este lugar  quando tinha dificuldades de entender a cultura de seu povo. Seu avô lhe dizia que tudo podia ser resolvido bastando colocar-se contra o vento e ouvir as palavras desse espírito-irmão. Segundo o velho, nada ficava sem resposta quando se soubesse fazer as perguntas certas. Mas quais perguntas podiam ser certas? Se tudo já estava decidido, o que mais querer saber? Se haviam pessoas que decidiam por ele, o que mais ele podia fazer?
Absorto nestes pensamento Tawé não percebeu Ianiurebê aproximar-se. A jovem acocorou-se ao seu lado, mas não dirigiu-lhe nenhuma palavra. Apenas catou alguns coquinhos que estavam ali por perto e passou a lançá-los no rio. As sementes batiam duas ou três vezes na água formando círculos. Ela ria tentando chamar a atenção do amigo de infância que continuava sem se dar conta dos gracejos que a menina fazia.
Num momento de lucidez do amigo, Ianiurebê tomou-o pelas mãos e fê-lo caminhar até a pequena praia mais abaixo do local onde estavam. No primeiro momento Tawé recuou em pegar na mão dela, mas em seguida deixou-se ser conduzido e seguiu os passos da pequena amiga que, agora, ele via que estava crescendo. Ianiurebê chamou sua atenção para a areia da praia e começou a riscar o  chão. Fez primeiro um círculo pequeno; em seguida um maior e, depois, outro ainda maior. Pegou uma pedra circular e lançou-a nas águas que absorveram-na em silêncio.
Tawé ficou imaginando o que aqueles círculos queriam dizer, mas não teve coragem de perguntar. Deixou que Ianiurebê tomasse a iniciativa.
- Você  está tão triste que não consegue distinguir o que os círculos querem dizer, mas eu vou lhe contar. O círculo menor é o que você sabe, é o seu conhecimento...bem pequeno. O círculo do centro é o que sabe nossa gente, nossos velhos...um conhecimento maior que o seu e o meu;  o círculo maior é o que você ou eu, ou nossa gente não sabe...é o mistério que alimenta a nossa vida...são as respostas que nossas perguntas ainda não encontraram.Dito isso a menina-moça olhou com carinho para o amigo e saiu correndo para a aldeia deixando Tawé sozinho com suas reflexões.
Ele acocorou-se perto do círculo e ficou pensando nas palavras da amiga, procurando entender aquele sinal. 
Tawé ficou imaginando o que aqueles círculos queriam dizer...
Totalmente envolvido com seus pensamentos não percebeu que uma canoa passou ali perto criando uma pequena onda que chegou à praia e apagou o desenho, mas deixando uma imagem em sua cabeça.
- Deixe disso, Tawé. Nada do que você está pensando é tão importante. Você precisa entender que cada pessoa tem um caminho para seguir e é dos passos que cada um dá que nossa gente vai vivendo.
- Mas padrinho, eu sou ainda tão pequeno, tão novo...por que eu tenho que fazer isso? Se eu não me sair muito bem? O que as pessoas vão dizer de mim?
- O que quer que elas digam haverá em você a vitória de ter tentado. Mas não se preocupe com isso agora. Quando chegar a hora você saberá fazer a coisa certa. Assim como as árvores crescem no tempo adequado, você também crescerá.
- Mas eu não quero crescer. Quero continuar a brincar com os meus colegas; quero nadar no rio, correr no mato, jogar flecha. As pessoas quando crescem parece que não fazem mais nada disso!!!!
- Cada estação tem seu tempo, Tawé. Não dá para pedir ao verão que ele se torne inverno ou ao inverno que vire verão. Com as pessoas também é assim. Não se pode querer que uma criança vire adulto ou um adulto vire uma criança. Sua hora como criança está passando. Você está virando uma árvore madura....e não adianta você se esforçar para fazer o contrário. Assim como a árvore cresce sem nossa ajuda, você crescerá  e virará um homem para o seu bem e de nossa gente.
Tawé recordou com certa tristeza a conversa que teve com seu padrinho. Sabia que estava virando um homem e isso lhe deixava confuso. Como poder ser um adulto sem abandonar a alegria da criança?
Enquanto pensava, notou que se aproximava seu melhor amigo, Cumaru. Vinha correndo numa alegria só. Cumaru tinha a mesma idade sua e não estava encontrando toda esta dificuldade em crescer. Parece que ele já tinha as respostas prontas em sua mente e em seu coração. 
Cumaru chegou em frente do amigo e apenas disse: - Xipat? Vamos no mato brincar de procurar as meninas? 
Neste instante, Tawé percebeu que pode haver uma grande alegria e aventura no crescimento. Que as árvores grandes dão as frutas mais deliciosas que as árvores pequenas.

 1- Xipat é uma expressão em Munduruku que quer dizer: tudo bem?
Daniel Munduruku







 

Os Munduruku
( Formigas Gigantes )
.Conta a história do Brasil que os Munduruku formavam um povo muito poderoso e guerreiro. Sua fama de caçadores de cabeça corria por todo o estado do Pará e do Mato Grosso.
O ruído que faziam com os pés quando saíam em grupo para espedições de caça e pesca, ou para a guerra, conferiu-lhes o apelido de "formigas grandes"( tradução da palavra "munduruku"), que fazia tremer os inimigos, que saíam em desabalada carreira para fugir.
Eram tambem conhecidos como "caras-pretas", pois tinham o costume de tatuar as faces de preto. Sua valentia era tamanha que participaram de várias revoltas populares no Estado do Pará e chegaram mesmo a ter cidades inteiras sob seu domínio.
É claro que as autoridades não gostavam disso e mandavam tropas militares para impedir os avanços dos Munduruku. Netas batalhas os "Caras-Pretas" quase sempre saíam vitoriosos, pois conheciam melhor a região.
Assim, os donos do poder continuaram a enviar tropas cada ves mais numerosas, e numa dessas batalhas os Munduruku finalmente acabaram vencidos.
Depois disso foram "pacificados"pelos "brancos" e se renderam aos encantos do mundo não indígena. Corria o século XVll quando esses índios foram vistos pela primeira vez...

NÃO SOMOS DONOS DA TEIA DA VIDA
Meu avô costumava dizer que tudo está interligado entre si e que nada escapa da trama da vida. Ele costumava me levar para uma abertura da floresta e deitava-se sob o céu e apontava para os pássaros em pleno vôo e nos dizia que eles escreviam uma mensagem para nós. “Nenhum pássaro voa em vão. Eles trazem sempre uma mensagem do lugar onde todos nos encontraremos”, dizia ele num tom de simplicidade, a simplicidade dos sábios. Outras vezes nos colocava em contato com as estrelas e nos contava a origem delas, suas histórias. Fazia isso apontando para elas como um maestro que comanda uma orquestra.
Confesso que não entendia direito o que ele queria nos dizer, mas o acompanhava para todos os lugares só para ouvir a poesia presente em sua maneira simples de nos falar da vida.
Numa certa ocasião ele disse que cada coisa criada está em sintonia com o criador e que cada ser da natureza, inclusive o homem, precisa compreender que seu lugar na natureza não é ser o senhor, mas um parceiro, alguém que tem a missão de manter o mundo equilibrado, em perfeita harmonia para que o mundo nunca despenque de seu lugar.
“Enquanto houver um único pajé sacudindo seu maracá, haverá sempre a certeza de que o mundo estará salvo da destruição”. Assim nos falava nosso velho avô como se fôssemos – eu e meus irmãos, primos e amigos – capazes de entender a força de suas palavras.Só bem mais tarde, homem adulto,  conhecedor de muitas outras culturas, pude começar a compreender a enormidade daquele conhecimento saído da boca de um velho que nunca tinha sequer visitado a cidade ao longo de seus mais de 80 anos.
Percebi, então, que meu avô era um homem com uma visão muito ampla da realidade e que nós éramos privilegiados por termos convivido com ele.
Estas lembranças sempre me vêm à mente quando penso na diversidade, na diferença étnica e social.   Penso nisso e me deparo com a compreensão de mundo dos povos tradicionais. É uma concepção onde tudo está em harmonia com tudo; tudo está em tudo e cada um é responsável por esta harmonia. É uma concepção que não exclui nada e não dá toda importância a um único elemento, pois todos são passageiros de uma mesma realidade, são, portanto iguais. No entanto, não se pode pensar que esta igualdade signifique uniformidade. Todos estes elementos são diferentes entre si, têm uma personalidade própria, uma identidade própria. 
Através de minhas leituras e viagens fui compreendendo, aos poucos, aquilo que o meu avô dizia sobre a sabedoria que existe em cada um e todos os seres do planeta. Descobri que não precisa ser xamã ou pajé para chacoalhar o maracá, basta colocar-se na atitude harmônica com o todo, como se estivéssemos seguindo o fluxo do rio, que não tem pressa...mas sabe aonde quer chegar. Foi assim que descobri os sábios orientais; os monges cristãos; as freiras de Madre Teresa; os muçulmanos; os evangélicos sérios; os pajés da Sibéria, dos Estados Unidos, os Ainu do Japão, os Pigmeus; os educadores e mestres...descobri que todas estas pessoas, em qualquer parte do mundo, praticando suas ações buscando o equilíbrio do universo, estão batendo seu maracá. Entendi, então, a lógica da teia. Entendi que cada um dos elementos vivos segura uma ponta do fio da vida e o que fere, machuca a Terra, machuca também a todos nós, os filhos da Terra. Foi aí que entendi que a diversidade dos povos, das etnias, das raças, dos pensamentos é imprescindível para colorir a Teia, do mesmo modo que é preciso o sol e a água para dar forma ao arco-íris.
      Por Daniel Munduruku



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Daniel Munduruku


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