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XIPAT? (1)
Tawé levantou
levemente a cabeça e fixou o olhar para o outro lado do rio Tapajós.
Pássaros levantavam vôo no exato momento em que uma canoa
passava na praia. Dentro dela ia um casal bem novinho, recém-casado.
O rapaz remava o barco com muita destreza e a moça o olhava com
um ar de sonho realizado. Tawé acenou sem muita vontade. Estava
triste, preocupado. Não queria conversar com ninguém, saber
da vida das pessoas ou o que estava acontecendo com elas.
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Tudo tinha perdido
o sentido para ele e não conseguia mais entender as mudanças
que estava se processando em sua vida
Ele ia sempre
a este lugar quando tinha dificuldades de entender a cultura de seu
povo. Seu avô lhe dizia que tudo podia ser resolvido bastando colocar-se
contra o vento e ouvir as palavras desse espírito-irmão.
Segundo o velho, nada ficava sem resposta quando se soubesse fazer as perguntas
certas. Mas quais perguntas podiam ser certas? Se tudo já estava
decidido, o que mais querer saber? Se haviam pessoas que decidiam por ele,
o que mais ele podia fazer?
Absorto nestes
pensamento Tawé não percebeu Ianiurebê aproximar-se.
A jovem acocorou-se ao seu lado, mas não dirigiu-lhe nenhuma palavra.
Apenas catou alguns coquinhos que estavam ali por perto e passou a lançá-los
no rio. As sementes batiam duas ou três vezes na água formando
círculos. Ela ria tentando chamar a atenção do amigo
de infância que continuava sem se dar conta dos gracejos que a menina
fazia.
Num momento de
lucidez do amigo, Ianiurebê tomou-o pelas mãos e fê-lo
caminhar até a pequena praia mais abaixo do local onde estavam.
No primeiro momento Tawé recuou em pegar na mão dela, mas
em seguida deixou-se ser conduzido e seguiu os passos da pequena amiga
que, agora, ele via que estava crescendo. Ianiurebê chamou sua atenção
para a areia da praia e começou a riscar o chão. Fez
primeiro um círculo pequeno; em seguida um maior e, depois, outro
ainda maior. Pegou uma pedra circular e lançou-a nas águas
que absorveram-na em silêncio.
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Tawé ficou
imaginando o que aqueles círculos queriam dizer, mas não
teve coragem de perguntar. Deixou que Ianiurebê tomasse a iniciativa.
- Você
está tão triste que não consegue distinguir o que
os círculos querem dizer, mas eu vou lhe contar. O círculo
menor é o que você sabe, é o seu conhecimento...bem
pequeno. O círculo do centro é o que sabe nossa gente, nossos
velhos...um conhecimento maior que o seu e o meu; o círculo
maior é o que você ou eu, ou nossa gente não sabe...é
o mistério que alimenta a nossa vida...são as respostas que
nossas perguntas ainda não encontraram.Dito isso a menina-moça
olhou com carinho para o amigo e saiu correndo para a aldeia deixando Tawé
sozinho com suas reflexões.
Ele acocorou-se
perto do círculo e ficou pensando nas palavras da amiga, procurando
entender aquele sinal.
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Totalmente envolvido
com seus pensamentos não percebeu que uma canoa passou ali perto
criando uma pequena onda que chegou à praia e apagou o desenho,
mas deixando uma imagem em sua cabeça.
- Deixe disso,
Tawé. Nada do que você está pensando é tão
importante. Você precisa entender que cada pessoa tem um caminho
para seguir e é dos passos que cada um dá que nossa gente
vai vivendo.
- Mas padrinho,
eu sou ainda tão pequeno, tão novo...por que eu tenho que
fazer isso? Se eu não me sair muito bem? O que as pessoas vão
dizer de mim?
- O que quer que
elas digam haverá em você a vitória de ter tentado.
Mas não se preocupe com isso agora. Quando chegar a hora você
saberá fazer a coisa certa. Assim como as árvores crescem
no tempo adequado, você também crescerá.
- Mas eu não
quero crescer. Quero continuar a brincar com os meus colegas; quero nadar
no rio, correr no mato, jogar flecha. As pessoas quando crescem parece
que não fazem mais nada disso!!!!
- Cada estação
tem seu tempo, Tawé. Não dá para pedir ao verão
que ele se torne inverno ou ao inverno que vire verão. Com as pessoas
também é assim. Não se pode querer que uma criança
vire adulto ou um adulto vire uma criança. Sua hora como criança
está passando. Você está virando uma árvore
madura....e não adianta você se esforçar para fazer
o contrário. Assim como a árvore cresce sem nossa ajuda,
você crescerá e virará um homem para o seu bem
e de nossa gente.
Tawé recordou
com certa tristeza a conversa que teve com seu padrinho. Sabia que estava
virando um homem e isso lhe deixava confuso. Como poder ser um adulto sem
abandonar a alegria da criança?
Enquanto pensava,
notou que se aproximava seu melhor amigo, Cumaru. Vinha correndo numa alegria
só. Cumaru tinha a mesma idade sua e não estava encontrando
toda esta dificuldade em crescer. Parece que ele já tinha as respostas
prontas em sua mente e em seu coração.
Cumaru chegou
em frente do amigo e apenas disse: - Xipat? Vamos no mato brincar de procurar
as meninas?
Neste instante,
Tawé percebeu que pode haver uma grande alegria e aventura no crescimento.
Que as árvores grandes dão as frutas mais deliciosas que
as árvores pequenas.
1-
Xipat é uma expressão em Munduruku que quer dizer: tudo bem?
Daniel
Munduruku
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Os Munduruku
( Formigas Gigantes
)
.Conta
a história do Brasil que os Munduruku formavam um povo muito poderoso
e guerreiro. Sua fama de caçadores de cabeça corria
por todo o estado do Pará e do Mato Grosso.
O ruído
que faziam com os pés quando saíam em grupo para espedições
de caça e pesca, ou para a guerra, conferiu-lhes o apelido de "formigas
grandes"( tradução da palavra "munduruku"), que fazia tremer
os inimigos, que saíam em desabalada carreira para fugir.
Eram tambem conhecidos
como "caras-pretas", pois tinham o costume de tatuar as faces de preto.
Sua valentia era tamanha que participaram de várias revoltas populares
no Estado do Pará e chegaram mesmo a ter cidades inteiras sob seu
domínio.
É claro
que as autoridades não gostavam disso e mandavam tropas militares
para impedir os avanços dos Munduruku. Netas batalhas os "Caras-Pretas"
quase sempre saíam vitoriosos, pois conheciam melhor a região.
Assim, os donos
do poder continuaram a enviar tropas cada ves mais numerosas, e numa dessas
batalhas os Munduruku finalmente acabaram vencidos.
Depois disso foram
"pacificados"pelos "brancos" e se renderam aos encantos do mundo não
indígena. Corria o século XVll quando esses índios
foram vistos pela primeira vez...
NÃO SOMOS DONOS DA
TEIA DA VIDA
Meu avô
costumava dizer que tudo está interligado entre si e que nada escapa
da trama da vida. Ele costumava me levar para uma abertura da floresta
e deitava-se sob o céu e apontava para os pássaros em pleno
vôo e nos dizia que eles escreviam uma mensagem para nós.
“Nenhum pássaro voa em vão. Eles trazem sempre uma mensagem
do lugar onde todos nos encontraremos”, dizia ele num tom de simplicidade,
a simplicidade dos sábios. Outras vezes nos colocava em contato
com as estrelas e nos contava a origem delas, suas histórias. Fazia
isso apontando para elas como um maestro que comanda uma orquestra.
Confesso que não
entendia direito o que ele queria nos dizer, mas o acompanhava para todos
os lugares só para ouvir a poesia presente em sua maneira simples
de nos falar da vida.
Numa certa ocasião
ele disse que cada coisa criada está em sintonia com o criador e
que cada ser da natureza, inclusive o homem, precisa compreender que seu
lugar na natureza não é ser o senhor, mas um parceiro, alguém
que tem a missão de manter o mundo equilibrado, em perfeita harmonia
para que o mundo nunca despenque de seu lugar.
“Enquanto houver
um único pajé sacudindo seu maracá, haverá
sempre a certeza de que o mundo estará salvo da destruição”.
Assim nos falava nosso velho avô como se fôssemos – eu e meus
irmãos, primos e amigos – capazes de entender a força de
suas palavras.Só bem mais tarde, homem adulto, conhecedor
de muitas outras culturas, pude começar a compreender a enormidade
daquele conhecimento saído da boca de um velho que nunca tinha sequer
visitado a cidade ao longo de seus mais de 80 anos.
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Percebi, então,
que meu avô era um homem com uma visão muito ampla da realidade
e que nós éramos privilegiados por termos convivido com ele.
Estas lembranças
sempre me vêm à mente quando penso na diversidade, na diferença
étnica e social. Penso nisso e me deparo com a compreensão
de mundo dos povos tradicionais. É uma concepção onde
tudo está em harmonia com tudo; tudo está em tudo e cada
um é responsável por esta harmonia. É uma concepção
que não exclui nada e não dá toda importância
a um único elemento, pois todos são passageiros de uma mesma
realidade, são, portanto iguais. No entanto, não se pode
pensar que esta igualdade signifique uniformidade. Todos estes elementos
são diferentes entre si, têm uma personalidade própria,
uma identidade própria.
Através
de minhas leituras e viagens fui compreendendo, aos poucos, aquilo que
o meu avô dizia sobre a sabedoria que existe em cada um e todos os
seres do planeta. Descobri que não precisa ser xamã ou pajé
para chacoalhar o maracá, basta colocar-se na atitude harmônica
com o todo, como se estivéssemos seguindo o fluxo do rio, que não
tem pressa...mas sabe aonde quer chegar. Foi assim que descobri os sábios
orientais; os monges cristãos; as freiras de Madre Teresa; os muçulmanos;
os evangélicos sérios; os pajés da Sibéria,
dos Estados Unidos, os Ainu do Japão, os Pigmeus; os educadores
e mestres...descobri que todas estas pessoas, em qualquer parte do mundo,
praticando suas ações buscando o equilíbrio do universo,
estão batendo seu maracá. Entendi, então, a lógica
da teia. Entendi que cada um dos elementos vivos segura uma ponta do fio
da vida e o que fere, machuca a Terra, machuca também a todos nós,
os filhos da Terra. Foi aí que entendi que a diversidade dos povos,
das etnias, das raças, dos pensamentos é imprescindível
para colorir a Teia, do mesmo modo que é preciso o sol e a água
para dar forma ao arco-íris.
Por Daniel Munduruku
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Daniel
Munduruku
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Daniel Munduruku - Todos os direitos reservados.
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